Pular para o conteúdo principal

Escravos da morte





Mais um carnaval acabou, esta é, sem dúvida, a melhor semana para todos os noctívagos como eu; são noites em que podemos sair pelas ruas sem ter a menor preocupação em manter nossa existência em segredo, porque as pessoas comuns estão tão bêbadas e inebriadas com todo o maravilhoso caos criado por sua alegria desesperada que nem mesmo se dão conta de que são apenas uma multidão de vítimas esperando para serem encontradas e abatidas.

Eu me chamo Jezhrabel, neste momento estou em minha casa, sentada sobre minha cama e alimentando meus animaizinhos com meu próprio sangue retirado de um longo corte superficial que faço em minha garganta; depois deixo que meus bichinhos, dois gatos que estão comigo desde o início, bebam um pouco, faço isso uma vez ao mês e eles se tornaram criaturas tão longevas quanto eu. A verdade é que prefiro meus monstrinhos às pessoas e é por este motivo que vou contar como foram meus dias de carnaval na cidade maravilhosa.

Moro no Rio de Janeiro desde 1919, vi toda a transformação que essa cidade passou até os dias de hoje, mas uma coisa se mantém intocada, imutável; o carnaval. Durante os meus anos vagando pelas madrugadas, pude conhecer outras cidades brasileiras e até mesmo algumas cidades estrangeiras, na Europa, América do norte e Ásia, mas nenhuma delas idolatra tanto uma determinada festividade quanto os cariocas o fazem com o carnaval. A relação que eles possuem com essa festa é visceral, carnal, profana, animalesca, e isso me excita. Mas o que eles não sabem é que justamente essa idolatria, essa veneração atraiu várias criaturas como eu através dos anos, a cultura popular nos chama de vampiros, mas a verdade é que somos deuses da noite.

Durante as noites de carnaval, não só eu, mas vários de nós saímos às ruas e podemos fazer o que bem quisermos porque toda a sociedade está de "guarda baixa", homens, mulheres e crianças todos vagando sem defesa, tando durante os dias quanto de noite quando nós saímos de nossas tocas. Nas últimas duas noites eu me alimentei de dois homens que se desgarraram de um bloco para urinar em um canto escuro da rua, nem mesmo puderam ver o que os atingiu, eu bebi o sangue quente e parcialmente alcoolizado deles, não me preocupei em esconder meus rastros, pois todo o lixo que havia ali faria esse trabalho por mim, além disso, me certifiquei de que sofressem e sentissem agonia antes que eu terminasse de drená-los, tenho certeza de que um deles morreu e o outro provavelmente vai ter muitos problemas para se recuperar.

É libertador. Eu caminhei no meio dos blocos, olhei para as pessoas tão de perto que podia sentir o cheiro do suor e da excitação exalando através da pele deles, ninguém achou estranho uma mulher com olhos esbranquiçados, grandes manchas roxas abaixo dos olhos, pele pálida e dentes longos, caminhando entre eles, afinal de contas, estavam, em sua maioria, todos fantasiados e julgavam que eu também estava. A beleza do carnaval é que todos os demônios podem sair tal como são e olhar bem nos olhos dos humanos sem serem incomodados. Se vocês soubessem o quão vulneráveis ficam nestas noites.

No sábado de carnaval eu estava andando entre as pessoas, já havia me alimentado e só queria encontrar alguém a quem pudesse escravizar e torturar por algum tempo, quando vi um jovem, estava com alguns amigos, todos sem camisa com físico trabalhado em horas de academia, mas sem qualquer inteligência aparente no cérebro, seguravam latas de cerveja na mão e olhavam para mim com aparente desejo carnal. Parei no meio da multidão e sorri para eles, em qualquer outra época do ano meus longos dentes de vampiro seriam motivo de medo, talvez, mas não nessa semana, não nessas noites.

Eles estavam parcialmente bêbados e continuavam bebendo ainda mais; os rapazes fizeram alguns gestos obscenos para mim e, rindo, se aproximaram. Percebi naquele momento que tinha encontrado meus escravos para aquela noite e sorri de volta, usei meu corpo para atraí-los, eram quatro, e a grande verdade que aprendi sobre os homens é que eles não resistem a um belo par de seios e pernas, eu tenho ambos e muito mais.

Quando nos aproximamos eles começaram a falar as coisas obscenas que queriam fazer comigo, achavam que teriam uma orgia naquela noite, mas quem se deliciou fui eu. Um deles segurou meu braço achando que sua força física me impressionaria e tentou me beijar, desviei meu rosto do beijo dele e cravei meus dentes em seu pescoço tão rápido que os outros nem perceberem, mas não bebi nenhuma gota de sangue, eu só queria vê-los sofrer. Ele colocou a mão no pescoço sobre a grande ferida que eu tinha feito e depois de dar alguns passos para trás com os olhos arregalados, cambaleou e caiu em meio a multidão. Os outros pensaram que ele tinha caído por efeito da bebedeira e riram incontrolavelmente.

A multidão de pessoas naquele bloco era enorme e a música era extremamente alta, foi quando percebi que o que quer que eu fizesse ali, não surtiria o efeito que eu queria, aqueles imbecis, assim como a maioria dos que estavam por toda parte nos mais diversos blocos não conseguiriam sentir o terror que eu desejava impor a eles, então resolvi retirá-los daquele ambiente. Olhei ao redor e escolhi um dos vários prédios altos que ficam próximos ao lugar onde estávamos; abracei dois deles e segurei o terceiro, por um momento pensaram que sua orgia começaria ali, estavam tão embriagados que seus pensamentos saltavam para fora de suas mentes de tal modo que até um neófito poderia captar.

Transportei nós quatro para o topo do prédio mais próximo e quando chegamos lá fiquei de pé  como uma deusa da noite, como se eu fosse a própria Nix, olhando enquanto eles, de joelhos, vomitavam por causa do efeito do salto através das sombras, alguns de nós podem usar as escuridão para se teleportar de um lugar para outro, mas os humanos sofrem muito se forem submetidos a essa disciplina. Os três vomitaram e o efeito do álcool pareceu se desfazer, porque finalmente começaram a disparar perguntas.
Um deles disse: _ Como viemos parar aqui?
Outro perguntou: _ Quem é você?
E por fim, o terceiro falou: _ O que está acontecendo?

Ao primeiro eu respondi: _ Eu trouxe vocês aqui.
Para o segundo eu disse: _ Eu sou a morte. E sorri da forma mais macabra que pude.
E para o terceiro respondi: _ Vocês agora são meus escravos enquanto os seus corpos aguentarem.

Um deles tentou correr, mas eu fui mais rápida; saltei sobre ele e ergui seu corpo do chão, usei minhas unhas para cortar vagarosamente a garganta dele enquanto os outros viam e entravam em desespero absoluto.

_ Se vocês tentarem fugir, é isso o que vai acontecer. - Eu disse.

Foi maravilhoso ver dois homens adultos, grandes e fortes, chorando como crianças, sem entender bem o que estava acontecendo e totalmente submissos à minhas vontades enquanto o terceiro sangrava no chão junto a nós.

_Por favor! Por favor! Não… Não nos faça mal! Por favor! - Suplicavam.

_ Venham aqui, me entreguem seus corpos e deixem-me ferir vocês. _ Eu disse.

Finalmente pude ver o terror consumindo a mente deles como um verme devorador, destruindo a sanidade deles, e aquela visão me fez sentir algo como um orgasmo. Avancei sobre eles com a fúria animalesca de uma legítima filha da noite e me saciei com a dor que impus a eles.

Abaixo de nós, lá na rua, as pessoas continuavam sua alegria carnavalesca sem sentido e o som da festa jamais permitiria que ouvissem os gritos das minhas vítimas.

Esta foi apenas uma das noites deste carnaval, mas fiz outros escravos nas madrugadas seguintes. Mal posso esperar pelo próximo ano. Aproveite bem, quem sabe não nos encontramos pelas ruas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Maldição carniçal

O homem caminhava lentamente, trajava um longo casaco pesado de couro e um chapéu surrado que lhe serviam tanto para proteger do sol quanto para impedir que alguém olhasse diretamente para seu rosto parcialmente deformado. Trazia na mão um saco de couro repleto de coisas importantes, ao menos para ele. Todos os dias, logo que o sol surgia no céu ele acordava, caminhava pelos salões escuros da antiga catedral que agora chamava de lar, para verificar se não havia nada errado. Checava se todas as janelas e portas estavam devidamente trancadas, via se todos os objetos de valor de seu mestre estavam nos devidos lugares e alimentava os animais acorrentados. Após isso fazia sua ronda pelo lado de fora do lugar, a catedral estava abandonada a mais de um século, ficava em uma localidade ligeiramente distante de algumas cidades rurais e ainda mais distante de alguns centros urbanos, mas não tão distante que ele não pudesse visitá-los de vez em quando à procura de alguma diversão carnal...

Última madrugada

Querido irmão. Como estão as coisas em Roma, espero que tenhas chegado bem; ainda não estou certa de que sua partida para a cidade eterna seja uma boa ideia e tenha algum propósito, não sei o que você busca, mas peço a Deus que seja algo capaz de nos ajudar nessa guerra porque estamos a cada dia mais perto da derrota. Nossos planos aqui mudaram desde sua partida, outro vilarejo foi consumido e não tenho certeza se conseguiremos manter o próximo em segurança, a maioria de nossos aliados tombou no confronto com a última horda, inclusive Ileana e Cosnim; sinto muito por suas perdas, pois ela foi uma esposa dedicada e uma combatente corajosa, e quanto a seu filho, foi o jovem mais habilidoso que já vi enfrentar aquelas criaturas do inferno, além de ser um sobrinho maravilhoso. Nossa família está agora reduzida apenas a nós dois e não sei se seremos capazes de continuar confrontando a escuridão que se abateu sobre nosso belo país; já há relatos de que os filhos da noite chegaram a ...

Hordas do Pandemônio

"Em algum ponto do futuro." A criatura pulou sobre ele com tanta força que atravessaram uma parede de metal reforçado como se fosse feita de papelão. Ele caiu com o monstro sobre seu corpo tentando a todo custo cravar os dentes em seu pescoço, felizmente sua armadura tinha sido projetada para proteger todo o seu corpo, desde a cabeça até aos pés. Quando o caçador sentiu o impacto do solo sob suas costas não teve dúvidas, mesmo com a fúria do vampiro sobre si, permaneceu tão frio quanto se esperaria de uma máquina de guerra, e, segurando a arma de grosso calibre em sua mão esquerda, apertou o gatilho tantas vezes que quase perdeu as contas, mas não perdeu, foram doze disparos em menos de um segundo; a arma lançou projeteis prateados e luminosos capazes de abrir buracos em blindagens de qualquer carro de combate dos anos 2000 como se não passassem de alumínio fino. Alguns dos disparos atingiram a criatura que saltou para traz gritando freneticamente sentindo sua pele p...