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Sua primeira vítima



Você ouviu um grito sinistro e abriu os olhos, no mesmo momento sentiu o vento noturno açoitar todo seu corpo. Você está no alto de uma torre antiga e apenas a luz da lua ilumina o céu escuro sem nuvens. Corvos e morcegos voavam ao redor da torre como em uma dança noturna macabra.

Você não entende como foi parar naquele lugar, olha ao redor e vê que a torre é completamente aberta, não há nada sobre sua cabeça, nenhum teto ou abobada; além disso, há balaustradas nos quatro lados sustentando parapeitos de tamanho mediano. Você se debruça sobre eles e constata que está na torre mais alta de uma antiga catedral gótica completamente em ruínas; à frente da torre de onde você observa tudo ao redor há uma outra torre menor com o característico símbolo da cruz católica, parcialmente destruída, no topo, e um grande sino dependurado no campanário logo abaixo da cruz; mais abaixo havia um enorme telhado que cobria todo o templo.

Tudo aquilo parecia um sonho, ou talvez, um pesadelo; você olha ao longe e vê que a catedral está localizada sobre uma colina que se ergue acima de uma pequena vila que parece adormecida em meio aquela madrugada sinistra. Ao redor da catedral, havia um cemitério repleto de túmulos, sepulturas, lápides e alguns mausoléus. 

De repente uma voz surgiu às suas costas dizendo:

_ Como você está se sentindo?

Você se vira e percebe que um homem, ou algo semelhante, está parado junto do parapeito, mas poucos segundos atrás não havia ninguém ali além de você mesmo. O Homem alto, esguio e pálido, vestia um manto preto que o vento noturno lançava de um lado para outro, porém ele não usava o capuz que pendia sobre os ombros e costas. Seu cabelo era branco e longo, caído sobre o manto e parecia reluzir como se fosse feito apenas de fios de prata.

_ Sabe o motivo de você estar aqui?

Você balança a cabeça negativamente, ainda tentando digerir tudo aquilo e lutando desesperadamente para acordar daquele pesadelo.

O outro sorri maliciosamente e afirma:

_Nada disso é um sonho. Tudo aqui é real.

Tal afirmação assusta você porque aparentemente o estranho ouviu seus pensamentos. Ele continua:

_ Faz algum tempo que tenho tentado trazer alguém aqui, mas ninguém sobreviveu à viagem, exceto você.

A confusão que você estava sentindo se tornou maior, porque não havia lembranças em sua mente de qualquer viagem. O que tudo aquilo significava?

Novamente o estranho aparentemente lendo seus pensamentos, respondeu:

_ Todas as respostas serão dadas no tempo oportuno. Agora preciso que venha comigo, tenho algo a lhe mostrar.

Reunindo o pouco de coragem que havia em seu coração, você finalmente pergunta:

_ Para onde vamos?

O outro aponta para baixo e diz:

_ Dentro da igreja.

Nesse momento você sentiu uma tontura, foi preciso se apoiar no parapeito. Ao ver isso, o estranho disse:

_ Não temos muito tempo.

Você estava imaginando como descer daquela torre tão alta se aparentemente não existia nenhuma escada por perto. De repente suas forças faltaram e suas pernas vacilaram; você quase caiu, mas o estranho segurou seu braço e cintura executando um movimento tão rápido que mal pode ser visto. Ele pareceu se mover como o próprio vento noturno.

O estranho falou:

_Você precisa se alimentar, do contrário, não sobreviverá até o fim da noite.

Tudo ficou escuro, você ouviu o som de uma explosão abafada, sentiu o vento soprar contra seu corpo fortemente e menos de um segundo depois já estavam dentro da catedral.  Alguns corvos e morcegos também estavam voando do lado de dentro, procurando algum lugar entre os caibros de sustentação do telhado para repousar. Ao que parecia o estranho tinha transportado você junto com ele para dentro da igreja, e parte dos animais alados também, aparentemente.

_ Usar as sombras como passagem para qualquer lugar é apenas uma das habilidades que você receberá antes do fim desta noite. _ Ele disse.

Mesmo sentido que estava cada vez mais sem forças no corpo você perguntou:

_ O que está acontecendo comigo?

O outro carregava você nos braços como se seu peso não significasse absolutamente nada para ele, e respondeu:

_ Você está morrendo; eu tenho me alimentado de você faz algumas noites, mas você suportou, e agora quero lhe conceder o mesmo dom que tem me mantido vivo por quase quatro séculos. Vou passar a você o dom da noite.

_ O que isso significa? _ Você perguntou.

Havia movimentos nas sombras em algum lugar próximo, você podia sentir, mas não era capaz de saber como podia fazer aquilo. Você ouviu um grito aterrorizado e um pedido de socorro.

_ Significa que você vai ser capaz de atravessar as sombras, ler pensamentos, comandar as feras da noite, será virtualmente indestrutível e imortal; desde que continue se alimentando de maneira prudente.

Finalmente o estranho colocou você em um local confortável coberto por um tecido aveludado de um vermelho muito vivo, sobre o qual rosas também vermelhas estavam por toda parte assim como no chão. Ao seu lado havia outra pessoa, uma jovem que chorava e se debatia, mas parecia estar presa, havia sons de correntes. A sua visão começou a falhar quando o estranho lhe deu algo para beber. Ele disse:

_ Tome, beba isso e será como nós.

Quase sem forças você bebeu o líquido quente e viscoso contido em um pote que estava sendo segurado pelo outro; sentiu aquela bebida descer por sua garganta queimando como se fosse fogo líquido e abrindo caminho até seu estômago onde causou uma dor tão aguda que sua única reação foi soltar um grito de agonia. Entretanto, o grito que saiu por sua boca jamais poderia ser considerado como humano, na verdade, pareceu com o urro de algum animal selvagem.

Repentinamente suas forças começaram a voltar, aquela bebida parecia ser uma espécie de elixir capas de restituir as forças de pessoas à beira da morte, mas no fundo você já sabia que se tratava apenas do sangue do estranho que tinha levado você até ali. Porém, na mesma medida que suas forças estavam voltando, a dor também crescia em seu interior; cada vez mais, e mais, em breve chegaria ao ponto de fazer você perder a sanidade e adentrar em um estado mental de loucura frenética absoluta.

Ele disse:

_ Agora se alimente e a dor vai passar. _ Ele apontou para a jovem que estava ao seu lado. Era uma jovem mulher e estava completamente amedrontada.

_Não, por favor! Não! _ A vítima acorrentada suplicava baixinho.

Você não sabia ao certo o que “se alimentar” queria dizer, mas logo percebeu ao sentir seus próprios dentes se alongando como o membro masculino diante de impulsos de sexualidade. Aquela jovem mulher estava repleta de sangue correndo dentro do corpo, ela exalava terror e instintivamente você avançou sobre ela como uma fera avança sobre sua presa, não teve piedade, não pensou no que aquilo significava; só queria aplacar a dor.

Sua mente agora era a mente de uma abominação noturna, exatamente como a mente do estranho homem que estava ali parado vendo você se alimentar daquela vítima inocente. Ele era um vampiro, e agora, você também. Aquela foi a sua primeira vítima; e não seria a última.


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