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Íncubo


A sombra escorregou sorrateiramente para dentro do quarto do casal, a janela era deixada apenas encostada durante toda a noite e havia uma fresta considerável na junção das armações de alumínio. Eles moravam num apartamento no décimo andar do prédio e todos os sons da rua e da madrugada ficavam muito abaixo, não se preocupavam em fechar a janela totalmente; o bairro era muito tranquilo, portanto também não havia nenhum cuidado com relação a invasões domésticas, sobretudo naquele andar.
O prédio não possuía nenhum modo de ser escalado pelo lado de fora e as janelas eram muito espaçadas entre si não dando a possibilidade de alguém alcançar qualquer janela a partir de outra, mais baixa, e assim subir gradativamente pelos andares. Além disso, possuíam proteção de metal em forma de grades do lado externo, o que praticamente eliminava a possibilidade tanto de quedas e acidentes com crianças quanto de invasão de qualquer pessoa. Ao menos de humanos.
O quarto estava às escuras e sobre a cama de casal dormiam marido e esposa de forma desleixada sob os lençóis. A sombra tomou forma num canto e ficou ali parada olhando ao redor como um pesadelo que escapou de algum sono violentamente atormentado. Ele averiguou todo o lugar, a escuridão não era problema para ele, via perfeitamente tudo nos mínimos detalhes, muito embora qualquer pessoa que se deparasse com aquilo parado no canto do quarto diria que a criatura não tinha olhos na face. Possuía a forma humana, mas apenas os contornos; era um simulacro sem olhos, sem boca, sem cabelos, sem rosto e sem qualquer característica humana mais específica; mas ainda assim com a forma de uma pessoa; cabeça, tronco e membros.
A criatura preferia aquela forma porque no passado era assim que ele vivia antes de se recolher completamente e se isolar em regiões inferiores. Por muito tempo ele viveu no meio das pessoas, dos humanos, dos mortais, mas depois de muitas décadas, o sangue parecia já não ter mais o mesmo gosto e também não transmitia mais a capacidade de sustentá-lo.
O marido se virou na cama e fez um barulho enquanto dormia, em seguida tossiu como se estivesse engasgado, depois voltou ao estado de antes, dormindo tranquilamente. Ele estava usando um short, sem camisa e usava meias também.
A criatura olhou rapidamente para o homem sobre a cama tentando adivinhar o que ele estaria sonhando, mas rapidamente se concentrou no motivo de sua visita ali. A mulher.
Ela havia se desvencilhado dos lençóis e usava uma camisola branca e leve que deixava as longas e belas pernas descobertas; devia estar calor, a criatura jamais sentiu a temperatura do ambiente. Aquilo parado ali num canto do quarto via claramente as formas suaves e sinuosas do corpo da mulher sobre a cama e já quase podia sentir todas as vibrações que aquele corpo quente emanava; a respiração dela estava tão calma quanto de uma criança, o corpo corado, o sangue correndo nas veias e artérias era algo que em outros tempos seria o suficiente para fazê-lo procurar rapidamente pela jugular dela, mas não agora.
Provavelmente os sonhos nos quais a mulher estava mergulhada fossem algo muito pacífico, mas aquilo estava prestes a mudar.
Vagarosamente a sombra abandonou seu canto e caminhou pelo cômodo, não fazia o menor barulho, parecia flutuar, seus pés quase etéreos tocavam o chão, mas não exerciam pressão alguma sobre o piso acarpetado do quarto. Ao lado da cama havia um pequeno móvel sobre o qual estavam um copo d’água, um livro e uns óculos. O monstro obscuro olhou rapidamente para tudo aquilo e voltou novamente o foco para a mulher. Ela se moveu levemente, estremecida, como que percorrida por um calafrio.
O vulto se aproximou com todo o cuidado, inclinou-se e observou o rosto da mulher bem de perto, sentiu a respiração pausada saindo pelas narinas da vítima adormecida. Ela tinha cabelos longos, negros e bem escovados, talvez tivesse perdido tempo antes de dormir escovando os longos cabelos, e estavam soltos, o que era um pouco diferente do comum. O rosto fino e de feições quase bem definidas, nariz afilado e lábios delicados e rosados. Um corpo esbelto, longo e belo, com curvas harmoniosas, parcialmente escondidas por baixo das poucas roupas.
Se ela abrisse os olhos naquele momento ia se deparar com uma enorme mancha sombria sem face inclinada sobre si, mas ela não abriu os olhos, continuava entregue ao merecido sono, mas breve teria uma experiência deliciosamente tenebrosa.
A criatura sentou-se sobre a cama bem ao lado da mulher adormecida; a cama não se incomodou e nem apresentou ruído algum, afinal, o espectro parecia não ter massa corporal ou peso, embora mantivesse um formato humanóide todo o tempo. Era apenas como um fantasma escuro.
No teto do quarto girava um ventilador de três pás e o vento produzido por ele, embora fraco, soprava devagar todos os tecidos finos sobre a cama, desde os lençóis até partes da camisola dela. A criatura fixou o olhar novamente na vestimenta da mulher, mas não era a camisola que ele olhava e sim o que estava além dela, a roupa branca praticamente deixava visível o tecido que a mulher usava por baixo.
O vulto estendeu a mão que deixou um rastro de nevoa escura no ar e tocou a testa da vítima devagar, em seguida apoiou toda a palma da mão e sentiu. O corpo estava maravilhosamente quente. O espectro deixou a mão correr pela cabeça dela, deslizando e alisando calmamente os cabelos da mulher que não respondeu. Permaneceu dormindo com a face voltada para o lado do marido, assim era melhor por enquanto.
A mão escorregou para o rosto belo e fino, sem maquiagem, depois de alguns minutos; tocou os olhos fechados, o nariz, as bochechas, os lábios, o queixo e um ponto atrás da orelha. Ela respondeu pela primeira vez; ressonou, seus lábios se abriram e deixaram escapar a respiração, mas era uma respiração um pouco mais intensa.
O fantasma desceu a mão para o pescoço longo e frágil que ostentava um pequeno cordão de prata fino com diminuto pendente praticamente repousando para o lado. Continuava vidrado na beleza dela e percebeu quase que instantaneamente quando a viu que aquele corpo era repleto de energia, libido e volúpia. Ela era perfeita e ele acariciava a pele aveludada com uma delicadeza quase sobrenatural a fim de provocar nela a excitação de que necessitava.
Tempos atrás ele faria tudo ao seu alcance para colocar suas presas num pescoço como aquele; tão frágil e ao mesmo tempo tão cheio de vida, mas agora tudo era diferente e havia descoberto algo muito melhor do que o sangue, algo que o libertou do vício e revelou o que realmente importava; a criatura agora buscava e se alimentava de uma coisa muito mais poderosa, muito mais pujante; ele se alimentava de prazer puro, e, para isso tinha que incitar suas vítimas a um grau de excitação capaz de provocar violentas sensações venéreas. Era fácil perceber que aquela mulher possuía um grande potencial de sensualidade.
Preferia invariavelmente mulheres e sempre enquanto dormiam; nunca acordadas, porque assim as defesas delas estavam tão baixas que era extremamente fácil ludibriá-las e fazer com que se entregassem por vontade própria o que tornava o ato mais natural e muito mais vigoroso, gerando muito mais prazer e alimentando-o muito mais. Dessa forma não precisava visitar várias mulheres numa noite, uma bastava.
O desejo também era de uma importância vital, portanto a sombra violava primeiro a mente da vítima, infiltrava-se nas regiões oníricas e lá seduzia antes de atacar; criava uma fantasia de acordo com o que a vítima desejava de modo que a induzia a se entregar completamente em sonho, sem pudor ou barreira alguma. A vítima nunca sabia que estaria também se entregando fisicamente. O fantasma percebia e assumia a forma que mais fosse atraente para as vítimas, a forma que mais provocasse desejo ardente nelas; desejos lascivos. Era muito simples, o sono entorpece a razão das pessoas e todas se abrem, revelam tudo nos sonhos; suas vontades, preferências, desejos, frustrações e absolutamente tudo o que a razão por motivos de segurança mantém escondido ou controlado.
Nos sonhos as pessoas podiam fazer tudo o que não deviam fazer fora dele. Até se entregar a desejos ardentes ou proibidos nos braços de um homem viril e atraente, no caso das mulheres, sem ter que conviver com qualquer culpa por tais atos. Em sonho elas podiam usufruir do prazer da relação repetidas vezes de uma forma tão intensa quanto a real, e era isso o que o espectro usaria para exaurir a vítima quase absolutamente.
A criatura tocou os ombros da mulher e acariciou por alguns segundos enquanto via claramente o que ela desejava; que tipo de homem a atraía e em que tipo de situação seria mais fácil se entregar a um estranho. Depois, passou a induzir o sonho da vítima com aquilo que tinha percebido.
Se naquele momento a mulher tentasse acordar, não seria mais capaz, estaria presa como num pesadelo, mas raramente alguma vítima desejava acordar depois de sentir os primeiros toques do vulto; além do mais, as sensações produzidas por ele eram tão reais, tão gostosas e tão profundas que quando terminava, caso a vítima não tivesse sido completamente exaurida, elas costumavam desejar que acontecesse novamente, e aquele desejo trazia a assombração de volta noites seguidas até que a mulher começasse a enfraquecer e sucumbir.
O Monstro começou a sentir o desejo aumentando dentro da mulher deitada; ela virou-se e arqueou o corpo momentaneamente, o rosto outrora voltado para o marido agora estava virado na direção da criatura. A respiração dela estava mais rápida acompanhando o que estava acontecendo em seus sonhos. Estava chegando à hora.
Ela ofegou, umedeceu os lábios com uma língua vagarosa e silenciosa, em seguida mordeu levemente o lábio inferior, passou a mão pelo rosto sem abrir os olhos; já estava completamente seduzida pela fantasia lúbrica da sombra.
A criatura já sentia todo aquele desejo luxurioso sendo produzido pelo corpo da mulher, os sintomas físicos estavam surgindo; as mãos nebulosas da criatura desceram rapidamente dos ombros para o ventre dela novamente deixando um rastro tênue de névoa obscura no trajeto. A mulher respondeu com um gemido baixo; a vítima abriu a boca num grito mudo, a respiração se alterou ainda mais, ficou ainda mais rápida. Mentalmente eles já estavam ligados; naquele momento a mulher estava se entregando à outra face da criatura, a face onírica do monstro devorador de libido, como se o fantasma sombrio usasse parte de sua consciência para violar o sonho da vítima enquanto sua forma espectral fazia o mesmo com o corpo dela. O ato já havia começado.
As longas e belas pernas se moviam e esfregavam os pés um no outro, a cabeça também virava de um lado para outro, lentamente; os cabelos longos estavam espalhados pelo travesseiro.
A sombra levantou-se no quarto escuro; a indefesa adormecida segurava os lençóis inconscientemente sem saber que aquilo que estava acontecendo no seu sonho era produzido por uma criatura ominosa presente no quarto de sua casa; tampouco sabia que quanto mais prazerosas as sensações fossem, mais drenariam de sua própria vitalidade, o demônio sugaria tanto a libido quanto tudo o que pudesse da vítima e ela ficaria cada vez mais fragilizada; não sentiria nada de imediato porque a luxúria esconderia os sinais, mas quando acordasse seria vitimada por uma fadiga quase incurável. Muitas mulheres não resistiam e com uma única noite de relacionamento com a criatura desfaleciam sem nem saber o que aconteceu.
Aquela, entretanto, era tão poderosamente cheia de vida, de desejo, de lascívia e de prazer que certamente a sombra retornaria outras noites para ter novas fantasias e relações com ela. E, Assim drenar toda a sua vida dia após dia.
Pouco a pouco aquela mulher perderia seu brilho, murcharia como uma flor perdendo a vida e era hora de fazer com o corpo dela o que no sonho já estava ocorrendo.
Finalmente o espectro que estava parado ao lado da cama, a sombra funesta, se deitou cuidadosamente sobre a vítima que o recebeu calidamente, transbordando de desejo, sem saber que ao ser violada estaria entregando muito mais do que apenas o corpo.

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